Análise do poema baseada no meu entendimento de uma aula do professor Roncari da Letras/USP. As ideias originais foram ouvidas na aula do professor, porém ele não é responsável por quaisquer erros, simplificações ou interpretações equivocadas de minha parte. Encare essa análise como o que ela é: uma anotação de aula que, em vez de ser feita no caderno, está na Internet.
LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO – poema de Carlos Drummond de Andrade
1 Clara passeava no jardim com as crianças.
2 O céu era verde sobre o gramado,
3 a água era dourada sob as pontes,
4 outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
5 o guarda civil sorria, passavam bicicletas,
6 a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
7 o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
8 As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
9 A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia [perigo.
10 Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
11 Clara tinha medo de perder o bonde das onze horas,
12 esperava cartas que custavam a chegar,
13 nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no
[jardim, pela manhã!!!
14 havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Análise
Um caminho para a interpretação deste poema é buscar as palavras que o autor usa e fazer associações sobre elas, para tentando enxergar um sentido maior.
Existem três palavras chaves para se interpretar o primeiro verso. Clara é uma delas. Note que o nome da personagem é o oposto de cinza, escuro, sombrio. As associações de Clara são óbvias e se juntam as associações de crianças, a segunda palavra: inocência, ingenuidade. A terceira palavra que se pode usar para associações é jardim. Jardim é a natureza domada, segura para o homem. E remete ao Jardim do Éden.
Então as primeiras idéias que o autor passa sobre o mundo antigo do qual se lembra são de clareza, inocência, segurança, uma idade do ouro.
O segundo verso traz uma coisa estranha: o céu era verde! Isso porque ele refletia o gramado. Ou seja, não se distinguia mais o céu da terra. De novo a idéia de uma época celeste, quando havia inocência – e voltamos à idéia de no Jardim do Éden, o céu na terra.
A idéia de idade do ouro é reforçada mais uma vez no verso 3, com a cor dourada da água sob a ponte. As cores enumeradas no verso 4 passam a idéia de alegria, vida.
O guarda civil sorria (verso 5). O guarda civil é o símbolo das proibições, das restrições. Só que neste mundo antigo ele sorri, incentivando a menina a pisar na relva no verso 6 (o que normalmente é proibido nos jardins). E ela vai pegar um pássaro, o que normalmente é muito difícil de fazer, porque o pássaro obviamente irá fugir. Mas aqui não tem medo, e se deixa pegar pela menina.
No verso 7 há referências a uma Alemanha e china tranquilas. Na época que o poema foi escrito a Alemanha vivia o Nazismo e a China era invadida pelo Japão, que estava provocando grande matança por lá.
Note que todos os versos estão no passado. Esse mundo antigo é a negação do mundo atual. Nesse mundo antigo se olhava para o céu (verso 8), nessa época não era proibido: havia perspectivas. O que quer dizer que agora não. Naquela época não havia embotamento dos sentidos (verso 9). As preocupações existiam, mas eram ordinárias, banais, e havia as compensações: podia-se passear no jardim, os sentidos eram livres, havia perspectivas, pois podia-se olhar o céu!
Com esse poema falando de um mundo antigo o autor cria um desconforto com o tempo atual, provocando uma reflexão e desejo de mudança.
Veja uma análise de “oficina irritada” de Drummond.